CF 2020 – “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele”

CF 2020 – “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele”
D. Tarcísio Scaramussa,SDB, Bispo Diocesano de Santos
Apresentar-se para receber as cinzas na cabeça é um ato litúrgico de início da Quaresma. É um gesto de grande significado simbólico para expressar a atitude de conversão. Será acompanhado com outras práticas do tempo quaresmal, como a oração, o jejum e a esmola. Queremos chegar à grande festa da Páscoa renovados, mais próximos e identificados com Deus, mais íntegros e serenos com relação a nós mesmos, mais fraternos e solidários com os outros, em especial com os que mais precisam de nossa atenção e amor.
Na vivência da espiritualidade pascal, que carrega o grande simbolismo da passagem de uma situação de escravidão e dependência para a liberdade, a Campanha da Fraternidade apresenta propostas de experiências que nos levam à conversão e à vivência concreta da Páscoa.
A motivação de base encontra-se na simplicidade de uma parábola através da qual Jesus ilumina o caminho de nossa vida. Há um homem caído na estrada, vítima de assalto e agressão desumana. Há pessoas que passam e seguem adiante, indiferentes ao sofrimento e abandono daquele homem caído. Mas um desconhecido samaritano se aproxima: “Vê, sente compaixão e cuida dele”.
O samaritano da parábola é o próprio Cristo, que viu, sentiu compaixão, e cuidou de nós! O discípulo de Jesus é chamado a segui-lo neste caminho.
“Ver” é o primeiro passo. Há muitas realidade que vemos, mas não enxergamos. A pobreza, a miséria, a injustiça estão à vista, mas já estamos tão calejados e insensíveis que não as enxergamos. Já nos acostumamos com isso, e já não nos escandalizamos mais. Não enxergamos a vida assaltada e agredida em pessoas morando em situações desumanas, em idosos vivendo na solidão, em pessoas esperando há anos por um tratamento de saúde, ou não atendidas nos hospitais e postos de saúde. Continuam invisíveis as pessoas desempregadas buscando há anos sobreviver à miséria e insegurança de sua família. O mesmo acontece com relação às crianças, adolescentes e jovens órfãos de pais vivos ou mortos.
Nossa sociedade parece não se importar com o futuro de seus cidadãos. Enfim, já não enxergamos as vítimas da insensibilidade das pessoas e do Estado colocado mais a serviço da Economia e dos interesses dos grandes do que empenhado em criar e manter políticas públicas que levem à diminuição da desigualde e proporcionem melhores condições de vida para todos. Também com relação à natureza, às vezes não enxergamos os danos que causamos ao meio ambiente com nosso estilo de vida e comportamento predatório! A vítima aqui é a natureza que nós maltratamos ou destruimos, com consequências dramáticas para a vida de todos no mundo.
O passo seguinte é “sentir compaixão”. Aquele homem caído à beira da estrada é alguém que foi assaltado e agredido, e pelo qual não podemos continuar passando indiferentes! A indiferença é sintoma de doença mental. Algo que desumaniza, como uma psicopatia, que torna a pessoa incapaz de sentir empatia real com os outros, como também de sentir remorso ou culpa. Compaixão é sinal de saúde mental, revela capacidade de sentir com o outro, de reconhecer sua dignidade. A parábola fala de pessoas que viram e passaram adiante, pessoas que conheciam os mandamentos da lei de Deus, mas seguiram indiferentes. Por isso, não se trata apenas de sentir dó das pessoas, mas ouvi-las e reconhecê-las como irmãos, tendo em nós os mesmos sentimentos que Deus tem para conosco: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. São Camilo de Lellis dizia: “Colocai mais coração nessas mãos!”
O terceiro passo manifesta-se e realiza-se na atitude do ‘cuidar’, fazer-se próximo das pessoas. Amar ao próximo significa fazer algo por ele: “Vai e faze tu o mesmo!”, disse Jesus ao doutor da Lei.
O texto-base da Campanha lembra o simbolismo de duas bacias com água: de um lado, a bacia de Pilatos que lava as mãos e se omite entregando Jesus à morte; de outro lado, a bacia utilizada por Jesus que lava os pés dos discípulos, expressão de sua vida entregue ao serviço, de seu amor e cuidado para conosco. O sentido da vida se encontra no amor. Dom Bosco dizia: “Deus colocou-nos no mundo para os outros”.
Os aspectos do cuidar são muitos, correspondentes às inúmeras necessidades das pessoas e da natureza. Tantos devem ser também os compromissos pessoais e comunitários que poderemos assumir com a conversão quaresmal: compromisso com a vida, em todos os sentidos; compromisso com os pobres; compromisso com o meio ambiente.
“O amor supera todos os obstáculos, todos os sacrifícios. Por mais que fizermos, tudo é pouco diante do que Deus faz por nós.” (Santa Dulce dos Pobres).