O legado de Madre Teresa: viver o ordinário de forma extraordinária

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(Pe. Brian Kolodiejchuk)
Pe. Brian Kolodiejchuk, MC, Postulador da Causa da Canonização de Madre Teresa, esteve em Santos, acompanhando o Tribunal que ouviu as testemunhas médicas do caso que pode levar à Bem-Aventurada à canonização. Ele falou ao Presença Diocesana (Informativo oficial da Diocese de Santos-SP)sobre o principal legado que Madre Teresa deixa à Igreja e a importância de sua vida e missão para os cristãos de hoje.
PD – Qual a principal contribuição de Madre Teresa para a Igreja?
Padre Brian – Em primeiro lugar, eu penso que o exemplo mais óbvio que Madre Teresa nos deixa é o amor e o serviço aos pobres. Mas este serviço aos pobres começa com o atendimento material dos mais necessitados e é muito concreto, pois se manifesta claramente através do trabalho de suas Irmãs, Irmãos e Padres. Mas se a gente olhar mais profundamente para a vida de Madre Teresa, vamos encontrar outros aspectos que é bom relembrar: Por exemplo, em meados dos anos 79, visitando suas irmãs que moravam fora da Índia, ela percebeu que havia outros tipos de pobreza além da pobreza material ou física. E ela dizia: “Está bem, eu posso dar uma tigela de arroz para alguém e, com isso, matar a sua fome. Mas, há um outro tipo de pobreza no mundo hoje que é a pobreza de não ser amado, de não ser querido, de não ser cuidado”.
PD – Uma visão inovadora para a ação da Igreja…
Pe. Brian – Sim. Madre Teresa era capaz de ver o sofrimento interior daquelas pessoas que se sentiam abandonadas, solitárias, que se sentiam isoladas do resto do mundo, vivendo sozinhas ou nos abrigos… era um tipo de pobreza que não podia ser suprida apenas com um prato de comida. E ela chamava a atenção para um outro aspecto: essas pessoas não estavam apenas abandonadas nas ruas de Calcutá, ou em qualquer outra cidade, essas pessoas estavam ao nosso redor, podiam estar no seio de nossa família, então, não adiantava encher as ruas com um exército de voluntários para atender aos necessitados materialmente, se em nossas casas havia outros tipos de necessitados. O foco dela era “temos de nos centrar mais em dar do que em receber”.
PD – Era viver a santidade no cotidiano?
Pe. Brian – Uma das frases favoritas de Madre Teresa era “fazer as pequenas coisas com grande amor”, “fazer as coisas ordinárias com um amor extraordinário”… Você não tem de fazer grandes coisas, coisas extraordinárias, mas fazer a mais simples das tarefas com grande amor. É o amor que dá grande valor a tudo o que você faz. Ela insistia muito para se ter um olhar atento ao que se passava ao nosso redor. A necessidade está ali, ao lado, na sua família, e citava os exemplos: podia ser alguém que gostaria de ser ouvido, alguém que precisasse apenas de um sorriso, talvez alguém que precisasse de ajuda com as compras, alguém que precisasse de ajuda com a leitura do jornal… essas coisas simples do dia a dia… mas, com certeza, esses pequenos gestos, fariam a pessoa sentir-se mais amada, querida, merecedora de cuidado e atenção.
A gente tem a tentação de olhar para Madre Teresa e dizer “ah, ela era uma mulher maravilhosa, invejável, um exemplo perfeito de caridade, mas isso eu não posso fazer”… Não. Talvez, a gente não tenha de ir para a Índia, ou para qualquer outro lugar pobre do mundo e fazer o que ela fez, mas, o que ela nos ensina é: preste atenção ao que está ao seu redor, faça o que estiver ao seu alcance, faça as coisas pequenas, as coisas comuns do seu dia a dia, com grande amor. Essa foi a regra básica da vida dela.
PD – O que foi para ela a experiência que ela mesma chamou de “escuridão”?
Pe. Brian – Se, à primeira vista, o que aparece como a grande virtude de Madre Teresa é a caridade, eu poderia dizer que ela é um maravilhoso exemplo de fé. Todos os santos são chamados a viver, de maneira heroica, as principais virtudes, ou pelo menos estar dispostos a viver de acordo com elas… Mas se você me perguntar qual seria outra virtude excepcional de Madre Teresa, além da caridade, eu, com certeza, diria que é a fé. Por quê? Depois que ela faleceu, nós viemos a conhecer a sua experiência interior, por muitos anos, o que ela chamou de “escuridão”. Ela partilhava intensamente em seu íntimo a mesma experiência que Jesus sofreu no Jardim do Getsêmani, e na Cruz, quando, experimentando o abandono do Pai, gritou: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? “… A experiência de “abandono” que os místicos vivem os preparam para aquela íntima união com Deus, com Jesus, a exemplo de Sana Teresa… Mas no caso de Madre Teresa, ela viveu essa experiência de abandono por longos anos. Mas ela viveu essa experiência de abandono, de sofrimento interior a partir da consciência do amor de Jesus por ela, e era essa consciência que a fazia identificar-se com o sofrimento de todos aqueles que se sentiam não-amados, não-queridos, não-cuidados. Então, mesmo sem “sentir” a presença de Deus em sua vida, ela não colocou em dúvida a sua missão. No nível do sentimento sentia solidão, escuridão, mas nunca abandonou a promessa que fez a Deus e a vocação que recebeu. Assim ela viveu a sua fé.
Algumas vezes nós fazemos uma distinção entre aquilo que não admiramos, mas podemos imitar, e aquilo que admiramos, mas não podemos imitar. Madre Teresa era assim: ela percebia o extraordinário no cotidiano… era um exercício de ver além do que os olhos podiam ver. Coisas que a gente também pode fazer: é preciso prestar atenção, procurar, ser capaz de encontrar essas pessoas para servir nas coisas ordinárias, que pode ser um sorriso, uma pequena palavra de encorajamento, talvez um pequeno gesto, o que quer que seja… mas se você fizer isso com atenção e com esforço, essas pequenas coisas farão realmente uma grande diferença na vida dessas pessoas. E foi como ela viveu.