Texto-base da 14ª Assembleia Diocesana de Pastoral

“Ser Igreja significa ser povo de Deus, de acordo com o grande projeto de amor do Pai. Isso implica ser o fermento de Deus no meio da humanidade, quer dizer, anunciar e levar a salvação de Deus a este nosso mundo, que muitas vezes se sente perdido, necessitado de ter respostas que encorajem, deem esperança e novo vigor para o caminho. A Igreja deve ser o lugar da misericórdia gratuita, onde todos possam sentir-se acolhidos, amados, perdoados e animados a viverem segundo a vida boa do Evangelho” (EG 114).

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As palavras do Papa Francisco nos levam de volta ao centro da nossa identidade cristã e nos relembram o motivo pelo qual estamos hoje aqui: somos os filhos amados de Deus, reunidos pela ação do Espírito Santo no amor de seu filho Jesus, para celebrar o dom de sermos igreja acolhedora, missionaria, misericordiosa, a serviço da vida plena. É este amor de Deus, vivido em comunidade, alimentado pela Palavra de Deus, celebrado na Eucaristia, que tem nos animado e impulsionado na nossa missão evangelizadora nesta realidade desafiadora e cheia de possibilidades na Baixada Santista.
É com o coração agradecido pela história que aqueles que nos antecederam construíram que também nós, neste hoje de nossa história, queremos olhar para nossa realidade, com o mesmo olhar com que Jesus olhava, discernir os sinais do Espírito, e responder com coragem, alegria e renovado entusiasmo aos apelos do senhor, que nos convoca a sermos uma igreja “em saída”. “Todos somos convidados a aceitar este chamado: sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho” (EG 20).
HISTÓRIA
Como Igreja Diocesana, olhamos para a nossa história recente, especialmente, a partir do Sínodo Diocesano (1995-2000), quando empreendemos um grande e sincero esforço eclesial, preparando-nos para a nossa tarefa de evangelizar no novo milênio que se anunciava. Foi um tempo propício para rever nossa caminhada, examinar as nossas fragilidades e omissões, renovar nossa confiança no Mestre Jesus e reafirmar nosso compromisso de sermos “sal da terra e luz do mundo” (Mt 5, 13-14) em nossas casas, em nossas cidades, em nossos ambientes de trabalho, em todas as situações da nossa vida cotidiana.
NOVOS DESAFIOS
Veio, então, o novo século e novos desafios se nos apresentaram, como características de uma época marcada pelo consumismo excessivo (em que a pessoa é valorizada pelo que ela pode comprar), pela descrença no futuro, pela doença do egoísmo (também contaminando nossas comunidades), com a consequente dificuldade de acreditar no outro, de valorizar o outro e de assumir compromissos duradouros. E tudo ficou à mercê dos nossos interesses pessoais, dos nossos desejos, das nossas necessidades. Nossos bispos, em Aparecida, fizeram um forte alerta sobre nossa missão nestes tempos que chamamos de “mudança de época”, em que os valores se diluem na mesma velocidade em que as “novidades” aparecem.
OLHAR PASTORAL
Entretanto, como Igreja, estávamos sendo desafiados a olhar com mais atenção pastoral:
. para a realidade do mundo do trabalho, no maior Porto da América Latina, fonte de sustento e de vida de milhares de trabalhadores de nossas cidades;
. para a situação de milhares de irmãos vivendo em condições subumanas nos bolsões de miséria nos cortiços, nos morros, nas periferias de nossas cidades;
. para a acolhida dos milhares de turistas que aqui vêm, em busca de descanso, lazer e refúgio para suas lutas diárias (embora isso constitua, em muitas situações, em caos e desassossego para nós);
. para o enorme contingente de estudantes e profissionais da Educação, espalhados nas escolas e nas universidades;
. para a situação dos idosos de nossas cidades (cada vez mais numerosos!), muitas vezes em situação de abandono por parte dos familiares e do poder público, ou ainda, sem muita aceitação também na própria Igreja.
Nesses campos, temos de reconhecer que passos muitos tímidos foram dados e que esses “pólos de atenção pastoral” continuam a desafiar a nossa capacidade de encontrar respostas adequadas às realidades que extrapolam o âmbito conhecido de nossa ação pastoral, via de regra, limitadas ao interior de nossas comunidades. Aqui cabe, certamente, o “puxão de orelha” de nossos bispos, em Aparecida (em 2007): “Não podemos ficar tranquilos, em espera passiva, em nossos templos… Sendo necessário passar de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionaria” (Documento de Aparecida, 370; 548).
VITALIDADE
Mas não estamos estagnados em nossas fragilidades. Pelo contrário! São inúmeros os sinais da vitalidade da nossa igreja nestas terras da Baixada Santista. Olhamos com carinho e encantamento:
. para as centenas de meninos e meninas que, com grande alegria e generosidade, se dedicam ao serviço do altar no ministério de coroinhas, e nesse ministério também se tornam missionários junto a seus familiares, amigos, colegas da escola;
. para a multidão de jovens que, inquietos, buscam se fazer ouvir e expressar suas angústias e incertezas, mas, igualmente generosos, se dispõem a colaborar em todas as tarefas que lhes são atribuídas e são também missionários em suas comunidades, em suas faculdades ou já nos seus ambientes de trabalho;
. para os catequistas, agentes de pastoral, casais, famílias, padres, ministros e colaboradores que estão doando suas vidas, fazendo o Reino de Deus acontecer, sendo “sal da terra e luz do mundo” na simplicidade de nossa vida diária!
E como foi animador ver em nossas comunidades:
. crianças, jovens, idosos, famílias respondendo com grande entusiasmo à convocação para se reunir ao redor da Palavra de Deus, nos encontros dos Círculos Bíblicos, para rezar, refletir, rever e celebrar as pequenas vitórias da caminhada comunitária, ouvir o que Deus quer de nós, e se dispor a dar mais um passo na nossa missão evangelizadora, pois a tarefa não está terminada;
. a realização das assembleias paroquiais, quando paramos também para discernir os apelos de Deus em nossa realidade e como responder a eles.
DESAFIOS
Desta caminhada, alguns desafios foram explicitados de modo particular, partindo da conversão pessoal, proporcionada pela experiência do encontro pessoal com Jesus Ressuscitado:
. somos chamados a abandonar estruturas, modelos pastorais, apegos aos cargos e comodismos que não favorecem nossa vida comunitária e o testemunho da fé;
. somos chamados a crescer na acolhida e no compromisso com a comunidade, trabalhando em conjunto com as demais pastorais, serviços, movimentos, associações;
. somos chamados a desenvolver um modelo de iniciação cristã que nos torne adultos na fé, responsáveis por nossa vida de batizados, e que tenhamos a Palavra de Deus e a Eucaristia como centro de nossas vidas;
. somos chamados a sermos comunidade de comunidades, saindo do isolamento de nossos grupos, pastorais, movimentos, comunidades, criando uma nova cultura do encontro, do diálogo, para irmos ao encontro dos excluídos, naquelas periferias existenciais e geográficas, revelando o rosto de uma igreja acolhedora, misericordiosa, samaritana, dispostos a socorrer, onde quer que a vida esteja em perigo;
. somos chamados a superar a divisão entre “fé e vida”, conhecendo a realidade onde nos encontramos e embasando nossa ação pastoral na Palavra de Deus e nos ensinamentos da Igreja.
Mas toda essa dinâmica que estamos vivendo, como comunidade eclesial na Baixada Santista, não se encerra em si mesma. Ela nos insere na caminhada comum de toda a Igreja no Brasil, na América Latina, em todos os continentes. De modo particular, comungamos do mesmo objetivo da Igreja no Brasil, que nos aponta as urgências para nossa ação evangelizadora para os próximos quatro anos, que nos indica por onde devemos caminhar:
“EVANGELIZAR, a partir de Jesus Cristo, na força do Espírito Santo, como Igreja discípula, missionária, profética e misericordiosa, alimentada pela Palavra de Deus e pela Eucaristia, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, para que todos tenham vida, rumo ao Reino Definitivo.”
URGÊNCIA MISSIONÁRIA
Ao mesmo tempo, o Papa nos recorda que a urgência da tarefa missionaria da nova evangelização no século XXI deve ser realizada em três âmbitos de ação:
– “Em primeiro lugar, mencionamos o âmbito da pastoral ordinária (daquela pastoral comum, do dia-a-dia), animada pelo fogo do Espírito, a fim de incendiar os corações dos fiéis que frequentam regularmente a comunidade, reunindo-se no dia do Senhor, para se alimentar de sua Palavra e do Pão de vida eterna”. Nesse âmbito devem ser incluídos também os fiéis que conservam uma fé católica intensa e sincera, exprimindo-a de diversos modos, embora não participem frequentemente no culto. Esta pastoral está orientada para o crescimento dos crentes, a fim de corresponderem cada vez melhor e com toda a sua vida ao amor de Deus.
– Em segundo lugar, lembramos o âmbito das pessoas batizadas que, porém, não vivem as exigências do Batismo, não sentem uma pertença cordial à Igreja e já não experimentam a consolação da fé. Mãe sempre solícita, a Igreja esforça-se para que elas vivam uma conversão que lhes restitua a alegria da fé e o desejo de se comprometerem com o evangelho.
– Por fim, frisamos que a evangelização está essencialmente relacionada com a proclamação do Evangelho àqueles que não conhecem Jesus Cristo ou que sempre O recusaram. Muitos deles buscam secretamente a Deus, movidos pela nostalgia do seu rosto… Todos têm o direito de receber o evangelho. Os cristãos têm o dever de anunciá-lo, sem excluir ninguém, e não como quem impõe uma nova obrigação, mas como quem partilha com alegria, indica um horizonte estupendo, oferece um banquete apetecível. A Igreja não cresce por proselitismo, mas “por adesão” (EG 14).
MISERICÓRDIA
E esse apelo do Papa vem carregado de um jeito muito especial. Ele pede: “Quanto desejo que os futuros anos sejam permeados de misericórdia para ir ao encontro de todas as pessoas, levando-lhes a bondade e a ternura de Deus! A todas as pessoas, crentes e afastados, possa chegar o bálsamo da misericórdia como sinal do Reino de Deus já presente no meio de nós” (Bula do Ano da Misericórdia, 5).
OPORTUNIDADE
Que grande desafio, mas, ao mesmo tempo, que extraordinária oportunidade, pois não estamos sozinhos nesta caminhada! “O verdadeiro missionário, que nunca deixa de ser discípulo, sabe que Jesus caminha com ele, fala com ele, respira com ele, trabalha com ele. Sente Jesus vivo com ele, no meio da tarefa missionaria” (EG 266)… E, “unidos a Jesus, procuramos o que Ele procura, amamos o que Ele ama. Em última instância, o que procuramos é a gloria do Pai, vivemos e agimos “para que seja prestado louvor e gloria da sua graça (Ef1,6). Se queremos entregar-nos a sério, essa motivação deve superar toda e qualquer outra. O movente definitivo, o mais profundo, o maior, a razão e o sentido ultimo de todo o resto é esta: a gloria do Pai que Jesus procurou durante toda a sua existência” (EG267)…
Que os trabalhos deste dia, confiados a Nossa Senhora do Rosário, Padroeira de Nossa Diocese, e modelo da Igreja acolhedora e missionária, sejam iluminados por essa belíssima oração: “Dai-nos olhos para ver as necessidades e os sofrimentos dos nossos irmãos e irmãs; inspirai-nos palavras e ações para confortar os desanimados e oprimidos; fazei que, a exemplo de Cristo e seguindo o seu mandamento, nos empenhemos lealmente no serviço a eles. Vossa Igreja seja testemunha viva da verdade, da justiça e da paz, para que toda a humanidade se abra à esperança de um mundo novo (Or. Eucarística VI-D).
Pergunta para os grupos:
É isso mesmo que queremos? Então, a partir da caminhada diocesana (Sínodo, Círculos Bíblicos, Assembleias paroquiais, em comunhão com a Igreja no Brasil, na América Latina e Caribe, e com os ensinamento do Papa Francisco), como sermos Igreja acolhedora, missionária, misericordiosa na Baixada Santista?
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